sexta-feira, 26 de maio de 2017

O inicio- Leonor


O Ínicio- Leonor
Tinham passados 2 semanas do casamento, recusei a lua de mel pois sabia bem que não iria aguentar, e uma lua de mel é suposto divertirmos-nos, fazermos sexo, passear,e com ele... com ele isso não iria acontecer, ele ia aproveitar-se novamente mas desta vez não tinha ninguém a quem ligar. Ainda por cima aquela pergunta que eu não queria que ninguém fizesse estava cada vez mais impossível de esconder, teria de resolver o assunto, não estava pronta para ser mãe...
Peguei no telefone e liguei à Clara, contei-lhe o que iria fazer, e de seguida liguei à minha médica para marcar uma consulta. Aquela decisão não me era fácil, nem de perto nem de longe, sempre sonhara em ser mãe, mas desta forma, sem amor... Nem uma pinga de amizade existia quanto mais amor. Esta criança não podia vir ao mundo, não iria ser amada, iria ser fruto de algo a que fui obrigada. Ainda me lembro como tudo começou, como eu realmente pensava que ele era diferente, como ele me fazia sentir especial, como fui tão burra, como pude me deixar levar por um homem? Eu tive de lutar tanto para conseguir ter a minha empresa, por vezes tive de ser fria, calculista, egoísta, não me deixei enganar por ninguém, e depois este... esta coisa apareceu-me à frente e desfez tudo, como Leonor? como? Bem, agora tinha de olhar em frente, e tratar do meu problema o mais depressa possível.
 Pedi à Clara que viesse ter comigo nessa tarde, precisava de apoio, sozinha não o poderia fazer, e sei que se fosse sozinha não aguentaria, e com ela, com ela eu não iria a baixo, ela não me deixaria.
 Eram  três da tarde, e eu estava sentada no banco do condutor, parada, completamente estática, no parque de estacionamento do Hospital. Estava ali à pelo menos meia hora, tinha combinado com a Clara  às dezasseis. Decidi vir  mais cedo, para começar a interiorizar-me do que iria fazer. Eu ia matar uma criança, eu ia matar o MEU FILHO. Comecei a chorar compulsivamente, eu ia cometer provavelmente o maior erro da minha vida, mas como é que eu podia permitir que aquele ser viesse ao mundo? Num mundo onde o pai dele é um traste, num mundo onde a mãe era constantemente agredida, eu sabia muito bem como estas historias acabavam, e eu não podia permitir que o meu filho passasse por isso, e para além do mais ele iria tirar-mo, eu não iria sobreviver.
 Comecei a ouvir um barulho vindo da mala, todo aquele zumbido fez-me sair do transe em que estava, olhei para o visor e vi que era a Clara.
"Onde andas rapariga? já cá estou!"
"Estou no parque de estacionamento, podes vir cá ter?"
"Claro, vou já para aí"
Não tinham passados nem cinco minutos e já estava ela a entrar porta à dentro.
"Não tens de o fazer, eu ajudo-te em tudo, vens para minha casa, pedes o divórcio, e nunca mais olhas para a cara daquele monstro"
"E a minha empresa Clara? Eu não posso permitir que aquele filho da mãe fique com tudo o que construí. não pode Clara."
"Então e o teu filho? Leonor, pensa, vais sacrificar o teu filho por uma empresa?"
"Tu sabes que a Glams para mim é muito mais que uma simples empresa, é tudo aquilo pelo que sempre lutei, eu sacrifiquei-me por aquelas pessoas, eu deixei pessoas parar trás para conseguir aquilo que tenho...ou melhor aquilo que tinha, eu tenho de recuperar  tudo o que ele me tirou, ele prometeu-me que depois de casarmos poderia voltar a trabalhar lá, e comigo lá dentro tudo vai mudar, eu só preciso de mais tempo"
"Pois Leonor, mas tu não tens esse tempo, tens um bebé dentro de ti, que não espera para crescer só porque tu queres, portanto, tens uma decisão a tomar, tens 2 caminhos, o mais fácil que é entrares neste hospital agora e acabares com tudo, ou o outro que é o caminho que eu sei que a Leonor que eu conheço tomaria."
"E qual é esse caminho?"
" É seres a mulher corajosa que eu conheço, enfrentares o mundo se for preciso pelo teu filho, é acabares com aquele filho da mãe, apresentares queixa, divorciares-te! Leonor eu sei que tens muito a perder, mas e o teu filho? Vais privá-lo da vida?"
 Eu não sabia o que dizer, o que fazer, nem sequer o que pensar...
"Leonor, queres um concelho de uma amiga? Vamos a esta consulta, vamos ver como esta o bebe e depois tomas uma decisão, pode ser?"
Assenti, iria à consulta e depois tomaria a minha decisão.
 Enquanto caminhava pelos corredores do hospital, via mulheres grávidas, com um sorriso no rosto, acompanhadas pelo marido ao lado, outras com os filhos, e eu ali a pensar em matar o meu filho, os olhares delas penetravam os meus olhos, como soubessem o que iria fazer, estavam a julgar-me. Saí dali o mais depressa possível, e quando dei por mim, já estava deitada na marquesa, com o gel na barriga.
"Leonor, está pronta para ver o seu bebé?"
Não sabia, se estava ou não mas já não havia nada a fazer, já que ali estava, tinha de enfrentar.
"Sim doutora pode prosseguir."
"Muito bem, vejamos como está"
Ela continuou ali a mexer com aquela coisa na minha barriga, e eu só sentia amor, por aquela coisinha, que tinha dentro de mim. As lágrimas escorriam-me pelo rosto, sentia uma emoção que nunca sentira antes.
 A minha decisão estava tomada, eu não iria pelo caminho mais fácil...

NC

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