Sei muito bem como é nos sentirmos no "purgatório do amor", é sentirmo-nos presos a nada mas ao mesmo tempo a tudo, é fazer de tudo para sair de lá a correr.
É o enganarmo-nos, fingir que conseguimos ultrapassar tudo, é acordar um dia e olharmo-nos ao espelho e dizer "a partir de hoje essa pessoa não existe mais na minha vida" e sairmos porta fora. Eventualmente poderá aparecer à nossa frente alguém que nos deixa a pensar que este é o nosso príncipe ou princesa, começamos a criar expectativas, criamos ilusões, queremos que ela haja de certa forma, mas essa não é a sua maneira de ser. Tentamos moldá-la ao que para nós fazia sentido naquele momento, mas depois apercebemo-nos que ele/a não corresponde aos nossos altíssimos requisitos, depois aparece outra pessoa e passa-se exatamente o mesmo e assim sucessivamente até chegar aquele momento em que paramos e a realidade fica mesmo à nossa frente e aí não temos mais saídas, resta-nos admitir aquilo que pairava no nosso coração mas que não podíamos sequer permitir que algo desse género nos passasse pela cabeça. Estávamos apenas a tentar encontrar em todas as outras pessoas um bocado da nossa pessoa, ou melhor da pessoa que supostamente deveria ser nossa.
Voltamos a nos sentir vulneráveis, frágeis, à mercê da sorte, estamos em baixo e quando parece que finalmente a tempestade passou começamos a nos levantar, espreitamos lá para fora para ver se é seguro sair. Passamos uns belos tempos na corda bamba, onde dizemos que estamos melhores mas nem nós próprios sabemos como estamos. Aí a pessoa volta e fala connosco, uma breve pergunta, ou um simples "oi!" que para essa pessoa é só um oi mas para nós é a luz, é a esperança a voltar, depois essa pessoa diz-nos meio subentendidamente que aquilo não passa de uma conversa de cortesia, e aí tudo se volta a desmoronar, sentimos raiva ódio, todos os sentimentos possíveis, imagináveis e inimagináveis. Dizemos que essa pessoa volta sempre nos momentos em que nós estamos a tentar reerguer que essa pessoa gosta de nos ver assim, desmontadas, desejamos retaliação. Mas a verdade é que a culpa é inteiramente nossa, porque nos deixámos iludir, deixamo-nos voltar a pensar em reconciliação, permitimos-mos pensar em coisas que já deveriam estar enterradas.
A culpa é nossa, mas não podemos admitir isso perante nós mesmos, então, mandamos as culpas para terceiros para ficarmos mais ou menos estáveis, mas a verdade é que estamos apenas a mandar poeira para os nossos próprios olhos. Então ficamos sentados no "purgatório do amor" à espera.
Durante essa espera uma vida se passa e nós continuamos à espera daquela pessoa, porque sabemos simplesmente que ele/a, é o/a tal, e nada nem ninguém pode nos fazer mudar de ideias.
Estou assim, sentada, à espera que essa pessoa passe comigo as fornalhas do Inferno, e que depois me dê a mão e me diga que finalmente estamos no bom caminho.
Enquanto isso não acontece fico à mercê da vida.
Enquanto a pessoa não se decide se háde enfrentar meio mundo comigo, ou simplesmente seguir o seu caminho eu fico à espera, à espera de um sinal. Talvez vá amolecendo a dor tornando-a mais suportável, talvez ela comece a desaparecer, mas sei que se ouvir aquela música ou ler aquela frase, vai tudo voltar à cena principal, os panos vão voltar a subir e a cena recomeça, não sei por quanto mais tempo conseguirei permanecer na mesma peça, não sei sequer se algum dia sairei dela, o que sei neste momento é que não estou tão mal como poderia estar, mas também não estou tão bem como desejaria estar. Esta pode ser a parte intermédia do estado, agora resta saber qual vai ser a final.
A única certeza que tenho é que estou perdida no labirinto que é este "purgatório" e que por mais voltas que dê não encontro a saída.
Talvez um dia a encontre ... ou talvez não....
NC