sexta-feira, 27 de maio de 2016

Precipício

É difícil exprimir aquilo que sinto, à algo cá dentro que me faz tremer, quando penso que poderei perder algo que é importante para mim, desculpem a estupidez de hoje mas o precipício por vezes parece estar demasiado próximo. A dependência que crio com certas pessoas deixam-me por vezes a mim mesma sufocada portanto se eu me sinto assim, como se sentiram eles?  
É-me complicado descrever este despenhadeiro que observo, posso dizer que estou numa posição que me concede uma bela vista, alto, profundo, penetrante, envolvente, são palavras soltas que ditas de uma só vez chegam bem para caracterizar aquilo que vejo, quem me dera poder dizer só isto, que esta paisagem me deixa embevecida, mas não é bem assim…  Medo, raiva, angústia, terror, pânico, são outras palavras que descrevem também aquilo por que estou a passar, uma mistura de sentimentos que me deixam um pouco abananada e sem norte. Com pessoas é mais fácil trilhar, mas às vezes quando são essas pessoas a ver o precipício tão perto, e que nos levam atrás, de uma maneira ingénua, (de ambas as partes), aí tudo nos parece mais horrendo. E sabem porque? Porque as pessoas que nos levam atrás são pessoas que nós preservamos, e quando nós antevemos a sua queda tudo se torna mais doloroso. É doloroso ver o que podemos perder, e só aí tomamos verdadeiramente noção que também nós estávamos naquela posição.
Outros caminhos terão de ser escolhidos, outras vistas terão de ser apreciadas, outros sentimentos terão de ser experienciados, mas de uma coisa posso garantir,  não estou disposta a deixá-los ir por esse precipício. Chamem-lhe teimosia, eu chamo amor, amor por aqueles que verdadeiramente estão, por esses posso garantir que não estarei alguma vez disposta a deixá-los ir por esse precipício.
Os gestos…, as palavras…, tornam-se irrelevantes perante uma situação de rutura iminente, tudo perde sentido, naquele momento somos só nós a lutar contra o vento que nos impulsiona para a ruína, que nos leva a ficar a um paço da maior queda da nossa vida, lá em baixo vemos um mar que nos aparenta o tal tesouro que nós tanto procurávamos… SERENIDADE…, cá em cima tudo é agitado e tudo faz pouco sentido, a vida faz pouco sentido, então salt… Não! Aí, alguém aparece e nos arrasta por um braço e nos faz encarar esta rebelião, faz-nos chorar de desespero até as nossas lágrimas secarem e depois, ajoelha-se connosco e faz nos ver que nem tudo é tão cinzento assim.
Tento mostrar-me o  quão verdade isto é, porque outrora fui a pessoa em que os papéis da serenidade e da agitação estavam trocados, mas foi aí.  Uma pessoa presente fez-me ver que as coisas não são tão negras como imaginamos. Chegou agora a minha vez de ser a âncora de outro corpo, de o arrastar da beira, de o fazer voltar para trás, sem perguntas, sem recriminações apenas um braço, um ombro, um corpo presente.
Uma nova cena aproxima-se, por agora, o pano cai, a peça encerra, e o silêncio apodera-se da sala, mas em breve uma nova produção começa, a agitação recomeça, o nervosismo volta, e o pano sobe, e tudo toma o rumo necessário, e mais indicado de acordo com o cenário proposto. Talvez um fim com meta, talvez um fim ainda por escrever, quem sabe, à sempre novos precipício por visitar e novas paisagens para acumular, mas uma coisa é certa, a vista é bem melhor aqui de cima. Lá em baixo ficam, bem lá em baixo não fica nada, apenas aquilo que nós queremos que fique.

                                                                                                                                                          NC

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